Soltando amarras...
Reclinou o olhar da alma na memória daquele rosto…
O trejeito em jeito de sorriso que lhe brotava dos lábios
prenunciava sofrimento não confessado,
mal disfarçado nos gestos trémulos e inseguros
que lhe pendiam das mãos torcendo vida,
renegando a consciência da permissão que lhe dera
para que assim o atrofiasse
e lhe torturasse os dias de tão longa e escura noite…
O olhar, baço de esperança,
entrevia o sonho de todos os sonhos
no limiar do desespero de quem teme vê-lo cair,
desfeito em pedaços mil espalhados pelo chão da alma,
temperada na calma aparente e fugidia
que lhe segurava a tormenta de ser quem não era,
a contragosto, abandonado de força, exausto de esperança,
amarrado pelos nós de uma vida que não queria sua mas suportava,
quebrado de coragem para lutar…
Na face riscavam-se os vincos da ternura sufocada
pelo vazio que lhe enchera o coração em cada pulsar de dor,
descompassado agora no bater de um sentimento
que acreditara jamais ser seu,
que pensara nem existir a não ser em bonitas palavras
lidas algures entre angústias e apatia,
num véu de melancolia
que não sabia explicar como ou de onde lhe chegava…
E eis que amava, por fim…
e a esse Amor se entregava por inteiro
com a fome absoluta do carinho que jejuara
em cada dia anoitecido na alma do seu coração…
esquecia do seu mundo as dores,
escondia-se de medos entre os fios de felicidade com que tecia futuro,
libertava-se no tempo que lhe fugia por entre os dedos
enrugados já na saudade do sonho
que não queria deixar cair,
que temia perder de si…
Amava, sim, intensamente…
e perdia-se de quem era para se encontrar a si mesmo
nas noites enluaradas desse Amor inquebrantável
que respirava ternura por todos os poros do seu sentir,
entreabrindo desejo nos lábios de cada beijo
colado na pele nua da emoção que lhe vestia o sonho
em que gemia vida e suspirava felicidade,
faminto de paixão,
extenuado de ansiedade…
Observou de novo, com os olhos do coração,
aquele rosto gravado a amor no peito da sua memória…
Notou-lhe o ricto magoado de angústia
que sulcava agora o sorriso desfalecido no olhar desenganado
pelo erro em que consumira vida e ser,
por tarde compreender que na porfia por um Bem maior
não temos como evitar que as lágrimas nos molhem o desgosto
e inundem de sofrimento o sentir…
porque se queremos o mel da vida,
deveremos suportar algumas ferroadas na alma
e aprender a curá-las buscando dentro de nós o lenitivo…
e nunca é tarde demais para amanhecer sorrindo um novo dia…
Sentiu-lhe o infinito desespero
no grito das lágrimas com que em silêncio a chamava…
E amou-o mais do que nunca!
(imagem recolhida online)